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Aqui trataremos de tudo aquilo que nos emociona.

A vida, em todas as suas formas e manifestações, nos leva a fortes emoções.

Espero poder traduzir, em versos e rimas, as expressões da vida com as quais eu tiver contato.



Luzia M.Cardoso
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quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Maria Gestante - Cordel em oitavas


 

Maria Gestante 

 

No Sul, Norte e Nordeste,

Sudeste e Centro-Oeste,

A pobreza é sempre igual.

Nela a tragédia investe

Sempre de forma fatal.

Por violência ou por peste,

Quando arrasta o primeiro

Leva muitos pro atoleiro.

 

Veja a vida de Maria:

Todo dia acorda cedo,

Filhos, casa pra cuidar.

Quebra rochas e rochedo,

Não consegue descansar.

Pro sustento, outro enredo:

O que paga o patrão

Não garante, à mesa, o pão.

 

Pra ganhar um dinheirinho,

Muito tempo no trajeto,

O restante na jornada.

Nesse tempo abjeto,

Quando a vida lh’é roubada,

Seu mais cruel desafeto

Vai lhe impondo sacrifício

Mascarado em benefício.

 

Maria está gestante.

Está prestes a parir.

Já fez todo o pré-natal,

Sem o tempo permitir.

Seu parto será normal,

Se a sorte lhe sorrir.

Nesse dia assombrada

Sua hora é chegada.

 

Entra no tempo da dor,

Recorrendo ao hospital.

Pro médico, dor não basta

Diz que ela é natural.

Mesmo essa que lh’arrasta,

Impiedosa, fatal.

Aprofunda a contração

Sem causar dilatação.

 

Nessa vida de Maria,

Um Ioiô pro hospital,

Examinam com mais toque.

Entra em confusão mental,

Logo, mais sinais de choque,

E sofrimento fetal.

Emergência, CTI.

Correm daqui para ali.

 

O tempo, que nunca espera,

Natureza impaciente,

Segue sempre inabalável.

Assistência negligente

É prática inaceitável,

Apesar de recorrente.

Nesse fatídico dia

Morre mais uma Maria.


Luzia M. Cardoso

07\08\2024


#morte materna #mortalidadematerna  #direitosreprodutivos

domingo, 28 de julho de 2024

Atenção! Porta Emperrada (cordel)



Atenção! Porta Enperrada



Em quebradas brasileiras, 
Marias a esperar
O bebê que leva ao ventre
E que cresce sem parar.
Outros filhos tão com fome,
Ela tem qu'alimentar.

Quando desce a ladeira,
Um busão pra se espremer.
Horas tragadas no rush,
No trajeto a vencer.
Se atrasa, o patrão
Nem tenta compreender.


Gravidez já avançada
Curvando sua coluna
Os pés, já muito inchados,
Piora a situação.
Seus nervos estraçalhados
Mais lh'apertam o coração.

Sente dores pelo corpo,
Latejar toda'a cabeça,
O suor... Um calafrio.
Está cortando'um dobrado!
Se procura um hospital,
Normalizam o agravado:

"Gravidez não é doença.
Sentir dor é natural.
Tome aqui um analgésico. 
Vá pra casa e coisa e tal.
Com bebê tá tudo certo.
Seu parto será normal."

Seguem dias nessa cina,
Sempre ouvindo a mesma coisa.
Já não s'aguenta de dor.
Pro doutor é cooisa àtoa.
E quando volta pra casa,
A família s'atordoa.

Co'a cabeça estourando,
Co'a visão muito nublada,
 Enjoada, vomitando,
Atravessa a madugada.
O acesso à assistência
Tem a porta emperrada.

Com a vida por um fiio,
Maria, com seu bebê,
Nada mais pode fazer.
A sorte já foi lançada.
Não adianta se benzer
Nessa estrutura travada.

Se'a gente não arrancar
A raiz de todo o mal,
Outras Marias, amanhã,
Sofrerão de forma igual,
Com risco da mesma sina
D'uma gravidez fatal.


Luzia M. Cardoso



#morte materna #mortalidadematerna  #direitosreprodutivos




 

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