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Aqui trataremos de tudo aquilo que nos emociona.
Espero poder traduzir, em versos e rimas, as expressões da vida com as quais eu tiver contato.
Luzia M.Cardoso
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segunda-feira, 3 de outubro de 2011
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
domingo, 25 de setembro de 2011
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Assombração Animal
ASSOMBRAÇÃO
ANIMAL
Sob o sol e sob chuva,
labutavam no sertão
Severino e sua família,
todos com os pés no chão.
Na jornada madrugavam
para garantirem o pão.
Acordavam com o galo
que rouco cocoricava.
(Apesar de ser tão magro,
no terreiro ainda mandava.)
Bebiam café tão ralo
que até a cor assustava.
Severino e Antônia,
junto com os seis
meninos
- Tião, José, Damião
João, Mané, Zé
Timbrino -
iam para a plantação
entoando sacro hino.
Léguas e léguas andavam,
chagas abertas no
chão.
Espinhavam-lhes os
cactos,
que saltavam da
aflição.
E rezando “Ave Maria”,
rogavam por redenção.
A poeira do caminho,
peneirada em cada
rosto,
chamava sombras da
noite,
que grudavam feito
encosto.
- Bom Jesus retire o
cálice
que nos enche de
desgosto!
Avistaram Nicolau
vendo o jegue lá no
fosso,
cercado por urubus,
garantindo o almoço.
Só deixaram, no local,
a carcaça. Puro osso!
Essa triste paisagem
invadiu a região.
Sobre o barro
afogueado,
tem-se uma vida de
cão,
mas há gente que ali
teima,
labutando em comunhão.
Severino e família
sobreviviam de caça.
Camaleão e preá,
buscavam com muita
raça.
Mas a água no açude,
somente em dias de
graça.
Assim, passavam as
manhãs.
Chegando a hora do
almoço,
de joelhos, mãos
unidas,
rezavam o padre nosso.
Na marmita rapadura,
e farelo com sal
grosso.
Novamente pra labuta
com o sol a castigar.
Mais buracos
cutucavam,
tentando algo
encontrar.
E nutriam aquele solo
com o sangue a jorrar.
Lua cheia despontou,
finalizando a jornada.
Outras léguas pro retorno,
e a barriga esvaziada.
Os ombros muito
envergados
e a cabeça arriada.
Era noite sem
estrelas,
uma coisa esquisita...
Na caatinga o silêncio
diz que algo
premedita.
E logo, um uivo
medonho,
de coisa muito maldita.
Damião fechou os olhos,
Zé Timbrino arregalou
e João tentou correr,
mas o irmão não
deixou.
José já ficou cismado
quando Tião se
agachou.
Severino, cabra macho,
pôs-se logo a procurar
pelo tal desaforado
que foi lá pra
assombrar.
Antônia pegou os
filhos,
tentando tudo acalmar.
O pai, com muito
cuidado,
acompanhou o assobio.
O som alto, muito
fino,
provocava arrepio.
Um bicho pulou de um
galho
pr'outro que estava
vazio.
Todos os meninos tremeram,
olhando o bicho de
esguelho.
Criatura esquisita
mastigava escaravelho.
Tinha orelhas pontiagudas,
e um focinho vermelho.
Frente a frente à
criatura,
Severino não medrou.
Puxou logo a peixeira,
com o animal se
atracou.
Rolaram de um canto a
outro,
a briga logo
esquentou.
Quando a coisa abria a
boca,
o chão dava de tremer.
Pelas ventas muito
fogo,
algo de surpreender.
Com as garras afiadas
queria tudo abater.
Severino deu um salto
e montou logo na fera.
Segurando no pescoço,
foi partindo para a
vera.
A família ajudou.
Lá, a união impera!
Era tanta da fumaça
que a noite se
assustou,
virando-se do avesso,
logo a Lua enrolou.
Mas coitadas das
estrelas,
uma a uma despencou.
Foi tamanha a confusão
que o bicho
desmoronou.
Ser estranho como
aquele,
ninguém nunca
encontrou.
Depois de passado o
susto,
uma luz ali chegou.
Antônia pôs-se a pedir
que agissem com muita
pressa.
Severino alto pensava,
fervilhando a cabeça.
Com um galho,
desenhava,
por estranho que
pareça.
Um plano logo surgiu.
Precisavam executar.
Cada um pegou sua faca
e uma pedra pra afiar,
com os fios
diferentes,
para furar e cortar.
Montaram todos na fera
antes de ela acordar.
Severino, com um
golpe,
atingiu a jugular,
e com a ponta do
facão,
fez muito sangue
jorrar.
Com o animal abatido,
parte a parte
retiraram.
Orelha, focinho, pés,
nas tripas tudo
ensacaram.
Membro a membro, órgão
a órgão,
e a fera
esquartejaram.
Cada um pegou seu
fardo,
pra arrastar até em
casa.
Apesar de muito peso,
a esperança criou asa.
No caminho cantoria
e o coração feito
brasa.
Ao chegaram ao vilarejo,
muita gente se juntou.
Todos queriam saber
o que por lá se
passou.
E ao contarem a
história,
todo o povo se
assustou.
Trabalhando em mutirão,
toda a carne foi
cortada,
salgando ambos os
lados
e afastando a
cachorrada.
E à sombra, num varal,
peça a peça pendurada.
Fizeram muita linguiça;
roupas com couro
curtido.
Como os dentes eram
grandes,
puderam ser esculpidos.
Muitos objetos d’artes
foram também
produzidos.
Essa fera alimentou
o povo da região.
Tempos melhores
chegaram,
ali naquele torrão.
Sete anos de fartura,
às custas da assombração.
Sertanejo é cabra macho,
mata a cobra e mostra
o pau.
Dia-a-dia frente à
morte,
luta contra todo mal.
Assombração é
pintinho,
quando a fome é
animal.
Essa história é
verdadeira!
As provas encontrará
nas bandas de Canindé,
no sertão do Ceará.
E dizem que muita fera
com medo foi pro Pará.
Luzia M. Cardoso - sob heterônimo Tonha dos Cafundó
domingo, 11 de setembro de 2011
TEMPO
Meu relógio marcava solidão.
Pisando pesados passos,
descompassava o coração.
E as batidas das horas sofridas,
lamentos agudos de meu ser,
revelavam pensamentos sombrios,
no breu dos cantos de meu querer.
Sou impaciente, confesso,
mas, como ficar sem ter você?
Essas horas não passam...
São minutos, milésimos de segundos
eternos...
E os ponteiros me levam
ao inferno.
sábado, 10 de setembro de 2011
Epicentro
Sou teu incenso, nesse amor insano.
Sou tua chama, a vela do centro,
a que concentra o sacro e o profano.
Eu sou também a lua, quando encontro
no teu sorriso os raios que emano.
Sou tua chama, a vela do centro,
a que concentra o sacro e o profano.
Sou teu tempero, pimenta e coentro;
queijo e vinho no frio da Serra.
Aqui na Terra, sou teu epicentro,
teu equilíbrio quando a noite encerra.
Em tua cama, no teu quarto adentro.
30 de Junho de 2010
