Obra Licenciada por Creative Commos

Licença Creative Commons
Este obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição.

Aqui trataremos de tudo aquilo que nos emociona.

A vida, em todas as suas formas e manifestações, nos leva a fortes emoções.

Espero poder traduzir, em versos e rimas, as expressões da vida com as quais eu tiver contato.



Luzia M.Cardoso
http://twitter.com/#!/luzia48

Direitos autorais registrados na FBN

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Assombração Animal



                      






ASSOMBRAÇÃO ANIMAL

 

Sob o sol e sob chuva,

labutavam no sertão

Severino e sua família,

todos com os pés no chão.

Na jornada madrugavam

para garantirem o pão.

 

Acordavam com o galo

que rouco cocoricava.

(Apesar de ser tão magro,

no terreiro ainda mandava.)

Bebiam café tão ralo

que até a cor assustava.

 

Severino e Antônia,

junto com os seis meninos

- Tião, José, Damião

João, Mané, Zé Timbrino -

iam para a plantação

entoando sacro hino.

 

Léguas e léguas andavam,

chagas abertas no chão.

Espinhavam-lhes os cactos,

que saltavam da aflição.

E rezando “Ave Maria”,

rogavam por redenção.

 

A poeira do caminho,

peneirada em cada rosto,

chamava sombras da noite,

que grudavam feito encosto.

- Bom Jesus retire o cálice

que nos enche de desgosto!

 

Avistaram Nicolau

vendo o jegue lá no fosso,

cercado por urubus,

garantindo o almoço.

Só deixaram, no local,

a carcaça. Puro osso!

 

 Essa triste paisagem

invadiu a região.

Sobre o barro afogueado,

tem-se uma vida de cão,

mas há gente que ali teima,

labutando em comunhão.

 

Severino e família

sobreviviam de caça.

Camaleão e preá,

buscavam com muita raça.

Mas a água no açude,

somente em dias de graça.

 

Assim, passavam as manhãs.

Chegando a hora do almoço,

de joelhos, mãos unidas,

rezavam o padre nosso.

Na marmita rapadura,

e farelo com sal grosso.

 

 Novamente pra labuta

com o sol a castigar.

Mais buracos cutucavam,

tentando algo encontrar.

E nutriam aquele solo

com o sangue a jorrar.

 

Lua cheia despontou,

finalizando a jornada.

Outras léguas pro retorno,

e a barriga esvaziada.

Os ombros muito envergados

e a cabeça arriada.

 

Era noite sem estrelas,

uma coisa esquisita...

Na caatinga o silêncio

diz que algo premedita.

E logo, um uivo medonho,

de coisa muito  maldita.

 

 Damião fechou os olhos,

Zé Timbrino arregalou

e João tentou correr,

mas o irmão não deixou.

José já ficou cismado

quando Tião se agachou.

 

Severino, cabra macho,

pôs-se logo a procurar

pelo tal desaforado

que foi lá pra assombrar.

Antônia pegou os filhos,

tentando tudo acalmar.

 

O pai, com muito cuidado,

acompanhou o assobio.

O som alto, muito fino,

provocava arrepio.

Um bicho pulou de um galho

pr'outro que estava vazio.

 

 Todos os meninos tremeram,

olhando o bicho de esguelho.

Criatura esquisita

mastigava escaravelho.

Tinha orelhas pontiagudas,

e um focinho vermelho.

 

Frente a frente à criatura,

Severino não medrou.

Puxou logo a peixeira,

com o animal se atracou.

Rolaram de um canto a outro,

a briga logo esquentou.

 

Quando a coisa abria a boca,

o chão dava de tremer.

Pelas ventas muito fogo,

algo de surpreender.

Com as garras afiadas

queria tudo abater.

 

Severino deu um salto

e montou logo na fera.

Segurando no pescoço,

foi partindo para a vera.

A família ajudou.

Lá, a união impera!

 

Era tanta da fumaça

que a noite se assustou,

virando-se do avesso,

logo a Lua enrolou.

Mas coitadas das estrelas,

uma a uma despencou.

 

Foi tamanha a confusão

que o bicho desmoronou.

Ser estranho como aquele,

ninguém nunca encontrou.

Depois de passado o susto,

uma luz ali chegou.

 

Antônia pôs-se a pedir

que agissem com muita pressa.

Severino alto pensava,

fervilhando a cabeça.

Com um galho, desenhava,

por estranho que pareça.

 

Um plano logo surgiu.

Precisavam executar.

Cada um pegou sua faca

e uma pedra pra afiar,

com os fios diferentes,

para furar e cortar.

 

Montaram todos na fera

antes de ela acordar.

Severino, com um golpe,

atingiu a jugular,

e com a ponta do facão,

fez muito sangue jorrar.

 

 Com o animal abatido,

parte a parte retiraram.

Orelha, focinho, pés,

nas tripas tudo ensacaram.

Membro a membro, órgão a órgão,

e a fera esquartejaram.

 

Cada um pegou seu fardo,

pra arrastar até em casa.

Apesar de muito peso,

a esperança criou asa.

No caminho cantoria

e o coração feito brasa.

 

 Ao chegaram ao vilarejo,

muita gente se juntou.

Todos queriam saber

o que por lá se passou.

E ao contarem a história,

todo o povo se assustou.

 

 Trabalhando em mutirão,

toda a carne foi cortada,

salgando ambos os lados

e afastando a cachorrada.

E à sombra, num varal,

peça a peça pendurada.

 

Fizeram muita linguiça;

roupas com couro curtido.

Como os dentes eram grandes,

 puderam ser esculpidos.

Muitos objetos d’artes

foram também produzidos.

 

Essa fera alimentou

o povo da região.

Tempos melhores chegaram,

ali naquele torrão.

Sete anos de fartura,

às custas da assombração.

 

Sertanejo é cabra macho,

mata a cobra e mostra o pau.

Dia-a-dia frente à morte,

luta contra todo mal.

Assombração é pintinho,

quando a fome é animal.

 

Essa história é verdadeira!

As provas encontrará

nas bandas de Canindé,

no sertão do Ceará.

E dizem que muita fera

com medo foi pro Pará.


Luzia M. Cardoso - sob heterônimo Tonha dos Cafundó

 


domingo, 11 de setembro de 2011

TEMPO




Tempo

 
Cheguei em casa, anoitecia...
Meu relógio marcava solidão.
Pisando pesados passos,
descompassava o coração.
E as batidas das horas sofridas,
lamentos agudos de meu ser,
revelavam pensamentos sombrios,
no breu dos cantos de meu querer.
Sou impaciente, confesso,
mas, como ficar sem ter você?
Essas horas não passam...
São minutos, milésimos de segundos
eternos...
E os ponteiros me levam
ao inferno. 


Luzia M. Cardoso
RJ, 16 de Junho de 2010



Interação com Damião Cavalcanti "A tua Impaciência e Odir Milanez "A Minha Impacinência" no site Poesia Pura"


sábado, 10 de setembro de 2011

Epicentro



Em tua cama, no teu quarto adentro
Sou teu incenso, nesse amor insano.
Sou tua chama, a vela do centro,
a que concentra o sacro e o profano.

Eu sou também a lua, quando encontro
no teu sorriso os raios que emano.
Sou tua chama, a vela do centro,
a que concentra o sacro e o profano.

Sou teu tempero, pimenta e coentro;
queijo e vinho no frio da Serra.
Aqui na Terra, sou teu epicentro,
teu equilíbrio quando a noite encerra.
Em tua cama, no teu quarto adentro.
Luzia M. Cardoso
30 de Junho de 2010


Arquivo do blog